Páginas

domingo, 22 de abril de 2012

Fotos da invasão norte-americana ao Afeganistão

"A atitude dos soldados parece, provavelmente, fomentar
um 'hematoma' nas relações entre os dois povos."
Ninguém escapa da loucura da guerra. A difusão de umas fotos, nas quais militares norte-americanos zombam dos cadáveres de seus inimigos no Afeganistão, degrada ainda mais a invasão dos Estados Unidos a esse país, assediado por fundamentalistas talibãs.

Como nos casos de tortura da prisão iraquiana de Abu Ghraib, durante a operação para derrubar Saddam Hussein em 2003, a questão das fotografias publicadas pelo jornal Los Angeles Times voltou a estremecer a opinião pública estado-unidense e mundial.


O jornal rejeitou as advertências do Pentágono - que também destacou que a difusão das imagens cumpria com a "sua obrigação de informar vigorosa e imparcialmente aos seus leitores sobre todos os aspectos" da missão, declarou seu diretor, Davan Maharaj.

Nem o presidente Barack Obama, que pediu uma investigação, nem o comandante das tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) no Afeganistão, o general John Allen, puderam explicar a conduta dos militares da 82ª Divisão Aerotransportada que visitaram em 2010 uma comissária na província de Zabol, no sudeste do país.

Um total de 18 fotografias foram publicadas pelo jornal norte-americano, nas quais pode ser visto um paraquedista pousando junto a um cadáver no qual se lê: "Zombie Hunter" (Caça-Zumbi); outras fotos mostram soldados com pernas de supostos "terroristas suicidas", entre outras imagens perturbadoras.

"Uma nova revelação de jovens soldados estado-unidenses fotografados enquanto profanavam os cadáveres de insurgentes no Afeganistão intensificou as perguntas dentro da comunidade sobre a disciplina militar estar decaindo devido à natural distância da guerra", dizem Tom Shanker e Graham Bowley.

Numa nota no The New York Times, destacam que a atitude dos soldados "parece, provavelmente, fomentar um 'hematoma' nas relações entre os dois povos, que foram maltratadas de crise em crise nos últimos anos, mesmo quando ambos governos estiveram em meio a negociações sobre acordos estratégicos”.

Analistas militares e veteranos de guerra sugerem que algumas unidades de combate estejam caindo em situações de conduta que os veteranos descrevem como a síndrome do "senhor das moscas", referindo-se à novela de William Golding que trata de um grupo de alunos britânicos perdidos numa ilha deserta.

Os estudantes, que escolhem um líder chamado Ralph, que lida com critérios civilizados, logo revertem para a violência tribal, esquecendo o que aprenderam em sociedade.

A esse caso das fotos em Zabol, acrescenta-se o incidente no qual quatro soldados estado-unidenses urinaram sobre os cadáveres de três pares afegãos, no dia 12 de janeiro, e a queima de exemplares do Alcorão na base de Bagran, próximo de Cabul, no dia 21 de fevereiro, que causou protestos e 30 mortos nos distúrbios.

E, além disso, não dá para esquecer do massacre de 16 pessoas - dentre elas, várias crianças - cometidas por um soldado norte-americano, no sul do Afeganistão, no dia 11 de março.

Apesar da polêmica gerada na opinião pública dos Estados Unidos, todos esses incidentes não acelerarão a saída das tropas estado-unidenses desse país asiático, previstas para 2014, segundo informou o Pentágono.

Washington insistiu em que "a razão pela qual as tropas estão em território afegão é para acabar com a Al Qaeda, e isso não aconteceu", destacou o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney.

Funcionários estado-unidenses disseram à imprensa que os casos recentes só representam uma pequena parcela de um milhão de militares arregimentados em distintas partes do mundo após os ataques do 11 de setembro de 2001, mas condenaram a conduta dos soldados envolvidos em tais incidentes.

No entanto, o presidente afegão Hamid Karzai, um aliado chateado dos Estados Unidos, já que ganhou sua reeleição em 2009 com denúncias de fraude, qualificou as fotografias de "desumanas".

Tudo parece indicar que os Estados Unidos não podem ganhar a guerra contra os talibãs no Afeganistão, e alguns especialistas destacam que essas fotos são o golpe final numa discussão perdida tanto no campo de batalha como na opinião pública norte-americana. Rosenberg, editor de Random Lengths New, integrante da mídia alternativa estado-unidense, opina que os ataques norte-americanos de 15 de abril em Cabul são parecidos com os ecos da "Ofensiva Tet" (lançada pelo Vietnã do Sul contra a guerrilha comunista em 1968), visto que têm uma mensagem chamativamente similar.

Num artigo publicado na página online da rede Al Jazeera, Rosenberg recorda que tal operação militar constituiu um retrocesso para Washington e convenceu o povo estado-unidense de que a Guerra do Vietnã não podia ser ganha.

Mais que uma luta entre a "civilização e a barbárie", como relata Golding em "O Senhor das Moscas", parece óbvio que existe um desgaste após onze anos de guerra no Afeganistão, e as tropas estado-unidenses aguardam com ansiedade o regresso para casa, como Obama lhes prometeu.

Apesar das desculpas da Casa Branca, as imagens difundidas pelo Los Angeles Times são uma amostra a mais de uma campanha militar que, ao que parece, nunca teve muito claros os seus objetivos quanto aos civis, na sua maioria tribus pashtunes, que também vivem no Paquistão.

Ao longo da história, soldados de países distintos (tanto vencedores como vencidos) cometeram atrocidades enquanto lutavam contra seus inimigos, incluindo os estado-unidenses que nas últimas décadas invadiram Vietnã, Iraque e Afeganistão, entre outras nações.

Por Alberto Galeano / Télam
Tradução livre: Jônatha Bittencourt

O Cessar-Fogo está aberto para a opinião de seus leitores. Caso tenha outro posicionamento relacionado à questão abordada acima, envie seu artigo ou indicação de matéria para editor@cessarfogo.com . Após a avaliação e aprovação do material enviado, ele será encaminhado para publicação. 

0 comentário(s):

Postar um comentário

Deixe aqui o seu comentário.