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quarta-feira, 14 de março de 2012

A Europa e os muçulmanos: tensão em um continente tolerante

Os atentados terroristas nos Estados Unidos e na Europa
dificultaram ainda mais a integração dos muçulmanos.
Aarhus é uma cidade pacata. Quem caminha pelo centro histórico num dia de semana, a julgar pela tranquilidade da paisagem urbana, não imagina que possa abrigar uma das mais respeitadas universidades da Europa (de fato, uma das 100 melhores do mundo), além de ter quase 250 mil habitantes. Foi, contudo, um jornal desta cidade dinamarquesa, pacífica e ordeira, que revelou ao mundo uma discussão latente na Europa: em setembro de 2006, ao publicar doze charges retratando o profeta Maomé, uma delas em que ele aparecia com uma bomba amarrada na cabeça em lugar do turbante, o jornal local Jutland Post gerou protestos que ultrapassaram todas as fronteiras. Muçulmanos em diferentes partes do mundo indignaram-se contra os desenhos: retratar o profeta é ofensa grave para os religiosos. Já na cultura dinamarquesa e europeia, a liberdade de expressão e a tolerância tem clara preferência.


Hoje, mais de 5% da população europeia é muçulmana. Só na Holanda, chegam a quase um milhão dos dezesseis milhões de habitantes. Vindos do norte da África e da Turquia, imigrantes foram atraídos pelos governos europeus durante o pós-guerra para prover o mercado de mão de obra barata. A política de atrair imigrantes cessou em meados dos anos 1970 pois muitos dos que já residiam na Europa ficaram desempregados com a crise econômica, sem porém voltarem aos seus países de origem.

O processo migratório desde então se intensificou, contradizendo todos os prognósticos: imigrantes já radicados, principalmente muçulmanos, passaram a convidar familiares a viver aqui também; homens passaram a viajar à terra de origem em busca de esposas, muitas vezes forçadas a enfrentar um casamento arranjado e acompanhar o marido na volta. Muitos não conseguem ou não querem integrar-se à nova sociedade em que vivem. Continuam falando árabe, por exemplo, melhor do que a língua local. Paul Scheffer, renomado político e escritor holandês, professor de Sociologia Urbana da Universidade de Amsterdam, advertia já no ano 2000 em um famoso artigo publicado na imprensa holandesa de que havia apenas uma conclusão possível desse processo: a integração na Europa ocorreria apenas em casos excepcionais, longe de se tornar uma regra. Os atentados terroristas nos Estados Unidos, em 2001 e, depois, na Europa, dificultaram ainda mais a já difícil integração e adicionaram um novo ingrediente ao processo: a radicalização dos jovens muçulmanos. Paradoxalmente, pois, uma regra acabou se consolidando: cada país, dentro de seu contexto, está lidando com um novo problema que ameaça a própria cultura de tolerância europeia.

O professor Lasse Lindekilde, doutor em Ciência Política pela Universidade de Florença, é especialista no assunto e falou à Revista Voto sobre o tema no intervalo de uma de suas aulas aos mestrandos do curso de Jornalismo, Mídia e Globalização, na Universidade de Aarhus. "A União Europeia, o Reino Unido, a Holanda e a Dinamarca foram os primeiros a propor políticas antirradicalização há cinco, seis anos. Desde os ataques terroristas em Madri (2004) e Londres (2005), para ser preciso. Foi aí que todo o discurso radical na Europa iniciou. Na Dinamarca, mais especificamente, após a publicação das charges no Jutland Post". Com a prisão, em 2008, de dois tunisianos e um marroquino nascido na Dinamarca por planejarem um atentado contra o cartunista Kurt Westergaard, a necessidade de tais políticas pareceu ainda maior.

O foco dos estudos de Lindekilde são os jovens que as políticas antirradicalização dinamarquesas visam atingir. "Esses jovens não acreditam em democracia. Todos os entrevistados da nossa pesquisa podem ser considerados não-democráticos. Os jovens muçulmanos acreditam que cabe a Allah fazer as leis; que eles jamais votariam em uma eleição dinamarquesa, que nunca participariam de um sistema democrático", avalia o professor. "Entretanto, eles não têm a intenção de fazer da Dinamarca um califado, de instalar um regime teocrático aqui, de destruir a democracia dinamarquesa", prossegue, distinguindo entre ser antidemocrático e não-democrático. O antidemocrata teria por finalidade destruir a democracia. O não-democrata convive com ela, sem porém aceitá-la ou participar dela.

A vida do cartunista autor das charges mudou radicalmente nos últimos anos, a ponto de contar com permanente proteção policial. Em contrapartida, também os muçulmanos na Dinamarca sentiram mudanças. "Muitos muçulmanos acusam as políticas antirradicalização de serem discriminatórias, apenas orientadas contra muçulmanos; que são simplesmente a continuidade da forma peculiar como os dinamarqueses descrevem muçulmanos como problemáticos e causadores de problemas". A implementação dessas políticas antirradicalização, portanto, segundo Lindekilde não é garantia de pacificação social: "muitas entidades muçulmanas veem essas políticas como discriminatórias e marginalizantes e poderíamos concluir que elas geram mais radicalização no mesmo momento em que tentam combatê-la. Nosso objetivo é tentar descobrir quais mecanismos podemos usar para evitar que isso aconteça".

Na Holanda, na Dinamarca e nos demais países europeus, o sentimento antimuçulmano tem, de fato, crescido: partidos têm se utilizado do discurso anti-islã para aumentarem suas bancadas enquanto muçulmanos se integram cada vez menos à sociedade em que vivem. A exemplo de Aarhus, por trás da aparência pacata e de tolerância, o mundo descobriu que há, definitivamente, uma grande tensão social em curso na Europa.

Por Marcel van Hattem - mestrando em Ciência Política pela Universidade de Leiden, Holanda

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